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Desde 2002, o Projeto Relatores Nacionais em Direitos Humanos Econômicos,
Sociais, Culturais e Ambientais (Dhesca) monitora, analisa e difunde informações
sobre a situação dos direitos humanos no Brasil. Atuando em áreas temáticas
–como alimentação adequada, trabalho, saúde, educação, terra e trabalho–,
relatores realizam visitas a estados e municípios na expectativa de, a partir da
construção de um quadro de violações, contribuir para que o país modifique suas
políticas e adote um padrão de respeito aos direitos humanos, reorientando
políticas de governo e ações privadas que possam causar danos às populações.
Na semana passada, a Plataforma Dhesca Brasil divulgou seu último informe, um
extenso documento de 184 páginas que relata as missões desenvolvidas ao longo de
2006. Segundo Maria Elena Rodriguez, coordenadora do projeto, no último ano elas
tiveram um caráter preventivo, com o objetivo principal de investigar e
denunciar violações iminentes e potenciais, decorrentes desde uma ação até um
mega-projeto, realizados pelo Estado ou pela iniciativa privada.
“O objetivo maior é prevenir a ocorrência de violações de direitos humanos em
situações onde se verifica uma ameaça iminente, e não apenas verificar e
denunciar as violações já ocorridas, uma vez que, na maioria dos casos, a
reparação ou a cessação da violação em curso pode levar um tempo indeterminado”,
explica. Para Maria Elena, num momento em que o país se vê desafiado a novas
pressões de grandes projetos e investimentos, é preciso impedir a repetição de
um padrão de desenvolvimento desigual e segregatório.
Em 2006, a Plataforma também realizou as chamadas “missões de seguimento” das
situações investigadas pelos relatores nacionais em anos anteriores. Nesse
processo, houve avanços, como a obtenção de respostas oficiais por parte do
Estado, o diálogo com ministérios e com a Secretaria Especial de Direitos
Humanos, a criação de espaços de interlocução com o poder público também nas
esferas estadual e municipal, e com órgãos como o Ministério Público e com a
Defensoria Pública. O projeto chegou a assinar, por exemplo, um protocolo de
intenções para cooperação técnica entre o Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais
de Justiça do Ministério Público dos Estados e da União. O acordo facilitará a
implementação de mecanismos de exigibilidade e monitoramento da observância dos
direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais.
Novas denúncias
O número de denúncias, no entanto, recebidas principalmente de movimentos
sociais e organizações da sociedade civil, não reduziu no último período.
Somente a relatoria de moradia adequada recebeu denúncias de cerca de 100
violações no ano passado. São acusações que vão dos programas de higienização
desenvolvidos pela Prefeitura de São Paulo às políticas de expulsão da população
pobre de áreas valorizadas na cidade de São José dos Campos, no interior
paulista. A relatoria também monitorou a situação das famílias sem teto do
Parque Industrial em Goiânia e das ameaçadas pela implantação do Pólo
Siderúrgico na Ilha de São Luis do Maranhão, numa missão conjunta com demais
relatores.
A situação de violação do direito à moradia também é crítica no estado do Rio de
Janeiro. Na Baixada Fluminense, cerca de um milhão de pessoas vive em condições
subumanas pela falta de salubridade da moradia e ausência de esgotamento
sanitário, limpeza dos córregos, rios e ruas e sistema de abastecimento de água.
Dentre as violações cometidas destacam-se a perda de vidas e destruição de bens
em enchentes e desabamentos de morros; a ausência de uma política publica de
habitação e de saneamento ambiental para a região; ausência de dialogo entre
comunidade e poder público e a não responsabilização das autoridades competentes
pelas violações.
Além disso, há um grande número de famílias ameaças de despejo pelo próprio
Estado. Desde outubro de 2005, o Ministério Público do Rio de Janeiro solicita à
Prefeitura Municipal a remoção de 14 favelas situadas em áreas que eles
consideram de risco e de preservação ambiental. Enquanto isso, o centro da
cidade, segundo a relatoria, possui um número relevante de imóveis, de
propriedade pública e privada, abandonados, que começaram a ser ocupados por
grupos de famílias.
“Com isso, os moradores das ocupações Zumbi dos Palmares, Chiquinha Gonzaga,
Regente Feijó e outros fizeram com que os edifícios públicos viessem a cumprir
com sua função social”, afirma no estudo a arquiteta Lucia Maria Moraes,
Relatora Nacional para o Direito Humano à Moradia Adequada. “Esses prédios,
antes relegados ao silêncio do abandono, passam a ser palcos de atividades
sociais, culturais e educativas. No entanto, a despeito de estarem construindo
uma nova realidade, voltada para a igualdade, à dignidade humana e efetivação do
direito à moradia –preceitos estes resguardados pela Constituição Federal– essas
pessoas não têm encontrado amparo por parte do poder público. Assim, o que se
observa, são repetidas tentativas –infelizmente em muitos casos vitoriosas– de
retirar essas famílias dos prédios públicos, desconsiderando o novo paradigma
que estas buscam consolidar”, explica.
A ameaça e realização de despejos foi a principal denúncia recebida pela
relatoria no ano passado. Neste contexto, a participação do Poder Judiciário na
defesa do direito à moradia digna tem se dado de forma isolada. De acordo com a
Plataforma, em grande parte dos casos em que há sentença para execução dos
despejos os juízes autorizam o uso de força policial e não avaliam o cumprimento
do princípio da função social da propriedade e da posse, face às ações de
reintegração propostas em áreas ocupadas por famílias de baixa renda. Por isso,
uma das recomendações apontadas no relatório é a construção de uma Plataforma
Nacional de Prevenção aos Despejos.
Tomado del sitio del Forum de
Entidades de Derechos Humanos de Brasil, en base a un artículo publicado el
5 de junio de 2007 por la Agencia Carta Mayor. El reporte completo en
formato PDF se puede descargar de
aquí ...
Reproducido en el semanario
Peripecias Nº 51 el 6 de junio
de
2007. Se reproduce en nuestro sitio únicamente con
fines informativos y educativos. |